A guarda compartilhada tornou-se a regra no Brasil desde 2014, com o objetivo de garantir que ambos os pais participem ativamente da vida dos filhos após a separação. No entanto, muitas dúvidas ainda surgem sobre como funciona na prática, quais são os direitos e deveres de cada um e como estabelecer uma convivência harmoniosa.
Neste guia completo, vamos esclarecer todos os aspectos da guarda compartilhada, desde o conceito até questões práticas do dia a dia.
1. O que é Guarda Compartilhada?
A guarda compartilhada é uma modalidade em que ambos os pais dividem as responsabilidades e decisões sobre a criação dos filhos, mesmo vivendo em casas separadas. Diferente da guarda unilateral (onde apenas um dos pais tem a guarda), na compartilhada os dois participam ativamente.
Princípios Fundamentais:
- Melhor interesse da criança: Todas as decisões devem priorizar o bem-estar dos filhos
- Cooperação entre os pais: Exige diálogo e respeito mútuo
- Divisão equilibrada: Tempo de convivência e responsabilidades são compartilhados
- Participação ativa: Ambos os pais tomam decisões importantes juntos
⚠️ Importante
Guarda compartilhada NÃO significa necessariamente que a criança ficará metade do tempo com cada pai. O que é compartilhado são as decisões e responsabilidades, não necessariamente o tempo físico de forma igual.
2. Guarda Compartilhada vs Guarda Alternada
Muitas pessoas confundem esses dois conceitos. Veja as diferenças:
Guarda Compartilhada:
- Ambos os pais decidem juntos sobre educação, saúde, religião, etc.
- A criança tem uma residência principal (geralmente com um dos pais)
- O outro pai tem direito de visitação regular
- Comunicação constante entre os pais é essencial
Guarda Alternada:
- A criança alterna períodos morando com cada pai
- Não há residência principal fixa
- Cada pai decide sozinho durante seu período
- Menos recomendada, pois pode gerar instabilidade
"A guarda compartilhada promove a presença de ambos os pais na vida dos filhos, reduzindo conflitos e garantindo uma formação mais equilibrada."
3. Como Funciona na Prática
Decisões Importantes (Devem ser tomadas em conjunto):
- Escolha da escola
- Tratamentos médicos e de saúde
- Viagens nacionais e internacionais
- Atividades extracurriculares
- Questões religiosas
- Mudança de cidade ou estado
Decisões do Dia a Dia (Cada pai decide durante seu período):
- Horários de dormir e alimentação
- Roupas e brinquedos
- Pequenos passeios
- Atividades de lazer
4. Direitos e Deveres dos Pais
Direitos de Ambos os Pais:
- Convivência: Ter contato regular e frequente com os filhos
- Informação: Acesso a boletins escolares, prontuários médicos, etc.
- Participação: Estar presente em eventos escolares, médicos e sociais
- Decisão: Opinar e decidir sobre questões importantes
- Comunicação: Falar com os filhos por telefone ou videochamada
Deveres de Ambos os Pais:
- Sustento: Contribuir financeiramente para as despesas dos filhos
- Educação: Acompanhar desempenho escolar e estimular os estudos
- Saúde: Cuidar da saúde física e mental dos filhos
- Afeto: Demonstrar carinho e atenção
- Respeito: Não desqualificar o outro pai na frente dos filhos
5. Pensão Alimentícia na Guarda Compartilhada
Um dos maiores mitos é que na guarda compartilhada não se paga pensão. Isso não é verdade! A pensão alimentícia continua sendo devida, calculada com base na necessidade dos filhos e na capacidade financeira de cada pai.
Como é Calculada:
O valor considera:
- Renda de ambos os pais
- Necessidades da criança (escola, saúde, lazer, moradia)
- Quem arca com despesas fixas (aluguel, condomínio)
- Tempo de convivência com cada pai
Geralmente, mesmo na guarda compartilhada, o pai que tem maior renda ou passa menos tempo com a criança paga pensão ao outro, para equilibrar as despesas.
💡 Importante
A pensão pode ser acordada entre os pais ou fixada pelo juiz. O valor médio varia de 20% a 30% do salário líquido do alimentante, mas pode ser maior ou menor dependendo do caso.
6. Regime de Convivência
Na guarda compartilhada, é fundamental estabelecer um regime de convivência claro, que defina:
Exemplos Comuns de Regime:
- Finais de semana alternados: A criança fica com um pai durante a semana e com o outro nos fins de semana alternados
- Divisão semanal: Uma semana com cada pai
- Dias específicos: Segunda a quarta com um, quinta a domingo com outro
- Personalizado: Acordo específico conforme rotina da família
Feriados e Férias:
Também deve ser definido:
- Como dividir feriados prolongados
- Férias escolares (geralmente metade para cada)
- Datas especiais (aniversário da criança, Natal, Ano Novo)
- Dia das Mães e Dia dos Pais
7. Quando a Guarda Compartilhada NÃO é Recomendada
Apesar de ser a regra, existem situações em que a guarda compartilhada pode não ser a melhor opção:
- Violência doméstica: Histórico de agressões físicas ou psicológicas
- Abuso de substâncias: Dependência química ou alcoolismo de um dos pais
- Distância geográfica: Pais morando em cidades muito distantes
- Desinteresse: Um dos pais não demonstra interesse em participar
- Conflito extremo: Impossibilidade total de diálogo entre os pais
Nesses casos, o juiz pode determinar a guarda unilateral com visitação supervisionada ou outras medidas protetivas.
8. Como Fazer um Acordo de Guarda
O acordo de guarda compartilhada pode ser feito de duas formas:
1. Acordo Extrajudicial (Consensual):
- Pais fazem acordo amigável
- Lavrado em cartório ou homologado judicialmente
- Mais rápido e menos desgastante
- Pode incluir cláusulas personalizadas
2. Via Judicial (Litigiosa):
- Quando não há consenso entre os pais
- Juiz decide após ouvir ambas as partes
- Pode incluir estudo psicossocial
- Processo mais demorado
O que Deve Constar no Acordo:
- Tipo de guarda escolhida
- Residência principal da criança
- Regime de convivência detalhado
- Valor e forma de pagamento da pensão
- Divisão de despesas extras (material escolar, plano de saúde)
- Férias e feriados
- Como será a comunicação entre pais e filhos
9. Dicas para uma Guarda Compartilhada Bem-Sucedida
Para os Pais:
- Comunique-se: Mantenha diálogo respeitoso sobre os filhos
- Seja flexível: Imprevistos acontecem, esteja aberto a negociar
- Não fale mal: Nunca desqualifique o outro pai na frente das crianças
- Cumpra acordos: Respeite horários e combinados
- Priorize os filhos: Deixe mágoas do relacionamento de lado
- Seja presente: Qualidade é tão importante quanto quantidade de tempo
Para as Crianças:
- Mantenha rotinas similares nas duas casas
- Não use os filhos como mensageiros
- Permita que tenham objetos pessoais em ambas as casas
- Incentive o relacionamento com o outro pai
- Esteja atento a sinais de sofrimento emocional
"O segredo de uma guarda compartilhada bem-sucedida é colocar o bem-estar das crianças acima das diferenças entre os pais."
10. Como Modificar a Guarda
Se a guarda compartilhada não está funcionando, é possível solicitar modificação:
Motivos para Mudança:
- Mudança de cidade de um dos pais
- Descumprimento reiterado de acordos
- Surgimento de situações de risco
- Desejo da criança (quando tem idade suficiente para opinar)
- Nova dinâmica familiar (novo casamento, nascimento de irmãos)
Processo:
- Tente primeiro um acordo amigável
- Se não houver consenso, entre com ação de modificação de guarda
- Juiz analisará o que é melhor para a criança
- Pode ser necessário estudo psicossocial
- Decisão sempre priorizará o interesse dos filhos
11. Perguntas Frequentes
Preciso autorização do outro pai para viajar?
Para viagens nacionais, geralmente não é necessário se você tem a guarda. Para viagens internacionais, é obrigatória autorização por escrito do outro genitor, reconhecida em cartório, ou autorização judicial.
Posso mudar de cidade com a criança?
Mudança de cidade que dificulte a convivência com o outro pai deve ser comunicada e, preferencialmente, acordada. Caso contrário, o outro pai pode contestar judicialmente.
E se o outro pai não cumprir o acordo?
Você pode registrar um boletim de ocorrência e entrar com ação judicial para garantir o cumprimento. Descumprimento reiterado pode gerar multa ou até perda da guarda.
A criança pode escolher com quem quer ficar?
A opinião da criança é ouvida (geralmente a partir de 12 anos), mas a decisão final é sempre do juiz, baseada no melhor interesse dela.
Conclusão
A guarda compartilhada, quando bem aplicada, é extremamente benéfica para o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças. Ela garante que os filhos mantenham vínculos fortes com ambos os pais, apesar da separação.
O sucesso dessa modalidade depende fundamentalmente da maturidade e cooperação dos pais. Se você está passando por uma separação ou já está em guarda compartilhada e enfrenta dificuldades, buscar orientação jurídica especializada pode ajudar a estabelecer acordos justos e funcionais para toda a família.
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Bruno Pessôa
